Eternidade (ou não)

– Oh, mas que belos olhos, quão admirável boca.
Ele pensava… Acho que é assim mesmo, duas pessoas passam uma pela outra em uma madrugada escura e ficam pensando em um pra sempre, um ao lado do outro, e simplesmente sabem. Sabem o quê?
Bem, sabem que recordarão daquele rosto pelas próximas cinco madrugadas, sabem que pensarão, em vão, nas vastas possibilidades que um gesto um pouco diferente poderia ter ocasionado naquela noite escura, sabem que invadirão espaços nas próximas manhãs, de olhar cansado, procurando sem cessar por aquela imagem (pseudo)inesquecível.
– Por que somente pelas próximas cinco madrugadas?
                Alguém curioso indaga. Porque é sempre assim. Sim, sempre. Tu nunca percebeste? A gente se apaixona perdidamente uma vez, duas, quatro… em um só mês. Em uma só semana. Refutas? Então se explique (e até o presente momento me pergunto o porquê de tê-lo questionado, pois passei as últimas duas horas ouvindo um longo discurso sobre o amor eterno, o casamento e tantas outras instituições).
                Mas, meu caro leitor, quem te disse que estamos de lados opostos? Eu diria, quase, que estamos do mesmo lado. Eu consideraria, até, que nos apaixonamos todos os dias. Pode ser pela recepcionista do escritório, o pintor da obra, a menina dos olhos belos da madrugada, quem sabe? Ainda não entendeste? Explico!
Podemos nos apaixonar sempre pelas mesmas pessoas, ou por outros indivíduos. Isso depende de nós, dos outros e de tantos outros pequenos detalhes que aparecem no nosso cenário. E se eu te contar que aquele moço lá em cima casou-se com aquela passante? Eles se apaixonaram outra vez. E mais umas dez mil vezes até hoje. Eis aí o segredo da eternidade.

Porque quando sinto, escrevo

Andei percebendo algumas coisas nesses dias. Um dia desses eu estava andando de um lado pro outro, de um lado pro outro, de um lado pra outro, e encontrei alguém. Não nos amamos, não nos tocamos, nem nos falamos. Mas sabíamos. Sabíamos feito raios de sol. Aquele dia estaria marcado como o nosso dia. E, constatei, tu tinhas noção desse fato. Conversamos e foi tão lindo até que deixou de ser. Eu esperava que fosse demais quando… nada. E éramos tão perfeitos e feitos um para o outro. Vigiava e planejava e os sorrisos se tornavam mais escassos. A gente quer que dê certo, mas tem que dar pros dois, né? E aí eu tentei fazer dar certo pra ti também, mas sabe como é, sempre tem coisas inadiáveis a serem feitas e um colega precisando de uma ajuda e uma tarefa de casa da escola. Aí as coisas vão passando e se esvaindo tão rápido… não temos tempo, não temos tempo. O dia é muito curto e o que não é prioridade acaba (não) sendo. Porque quando a gente planeja, é trabalho, é estudo, é dinheiro, é casa, é apartamento, é carro, é cartão. Mas só de crédito, hein? Cartão de amor, nem pensar, só amanhã! E como demora pra esse amanhã chegar…

Última mensagem

Mensagem recebida às 23h32 de: (xx) xxxx-xxxx

Olha, eu acho que se tu me ligasses todos os dias ou respondesses a algumas das minhas mensagens, sei lá, se tu viesses me ver uma vez por semana, trouxesse flores a cada mês… poderíamos ter sido. Sabe, podia ter dado certo. Ao invés disso, acordava todas as manhãs e dormia pelas madrugadas pensando e sonhando no dia em que, puf, não houvesse de te pedir um sorriso, um beijo ou uma resposta. Eu nunca tive pressa, mas ficar estagnada também não leva a lugar algum: a cada rara conversa ficava mais claro que, se tivesse havido um esforço mútuo, funcionaria. Mas não houve. E não funcionou, pois senti todos os sentimentos só. Em nenhum momento no qual fomos uma qualquer coisa me senti ser algo além de eu mesma. Como ter um par. E eu pedia tão pouco… tu não precisavas me fazer juras, só estar ali comigo, no mesmo cômodo, por um tempo. Nem precisava ser muito… só o suficiente. Entendes do que falo? Eram pequenas coisas, caro. Sorrisos, beijos ou respostas. E nem precisavam estar no plural.

Flores e Laços (Sobre o Caio)

Eu e Caio andávamos de mãos dadas desde o momento em que aprendi a ver. Abri os olhos, e ele estava lá, colado a mim. Ele não me largava, eu não o deixava ir, não importa aonde ou quando. Até quando me mudei ele veio junto comigo. Eu amava – e adoro – as coisas que ele me conta: segredos, histórias e besteiras. Tantas besteiras… um dia, nós dois enrolados entre ramalhetes de girassóis, ele me falou assim:
Sei que pretendia dizer alguma coisa muito especial pra você, alguma coisa que faria você largar tudo e vir correndo me ver…
Eu retruquei, sem entender nada:
– Como assim, Caio? Eu estou te vendo e estou aqui do seu lado, e tu não precisas dizer nada…
Ele se calou por uns instantes. Acho que ele estava seguindo meu conselho de deixar os silêncios ocuparem seu discurso. Mais alguns minutos de sol, e ele finalmente me responde:
Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir…
– Mas Caio, do que estás falando? Nós estamos sempre juntos, tu nunca fugiste de mim. E o que podes ter a me esconder, eu que estou contigo sempre e em todos os dias?
Nada. Imaginei que aquilo tudo era coisa de louco, que, meu Deus, todos estavam certos sobre ele. Pois é, diziam-me que ele era maluco, que falava coisas-sem-sentido, que gritava insanidades, mas eu não acreditava. Naquele momento, pensei, as palavras estavam o deixando parecer um l-o-u-c-o. Inquietei-me e saí correndo. Foi a primeira vez em anos que largamos a mão um do outro. Ele custou para me deixar ir, mas permitiu. Com um olhar, sem mais vocábulos. Corri para longe daquela plantação de girassóis, e lá fiquei por dias. Meses. Anos. Pensava, às vezes, até, que encontraria o Caio no meio de uma rua solitária, juntaríamos nossas mãos e nunca mais nos separaríamos de novo. E um dia, deparamo-nos em frente a uma floricultura, e eu soube, naquele momento, de tudo. E exclamei:
– Diga-me, diga-me algo que me faça largar tudo por ti. Diga-me tudo que preciso saber, para que tu não precises mais fingir…
O que te dizer? Que te amo, que te esperarei um dia na rodoviária, num aeroporto, que te acredito, que consegues mexer dentro-dentro de mim. É tão pouco.
– Não creio não ter entendido antes tuas palavras… Sinto tanto por ter ido embora…
Não te preocupa. O que acontece é sempre natural. Se a gente tiver que se encontrar, aqui ou na China, a gente se encontra. (…) E te espero. E te curto todos os dias. E te gosto. Muito.
Aquele momento não precisava de interpretações filosóficas no mundo biossocial antropocultural nem era loucura-insana nem nada do tipo. Era mãos dadas pro resto da vida. Era simplesmente… nas palavras do próprio Caio:
Remar.
Re-amar.
Amar.
~
*grifos em itálico constam na obra do saudoso Caio Fernando Abreu.

Tapar Buracos

“Seria apenas mais uma história, se não tivesse tocado a alma.” Caio F. Abreu

Eles se conheciam desde a maternidade, compartilharam a infância, o amadurecimento. Estavam assim até hoje. Assim, ele cochichou no ouvido dela:

– Você não acha que nós ficaríamos bem juntos?

Num pestanejar de olhos, ela pensou: sim, com certeza, ficaríamos lindos juntos. Tu, com esse teu ar de amor, com essa tua beleza única, com esse olhar encantado e com todas as outras coisinhas que eu sempre percebo quando cruzo por ti. Achas que nunca pensei nisso? Pensei sempre, todas as vezezinhas (e foram tantas!) que nos vimos ao longo dos anos. Refleti sobre como somos parecidos, como combinaríamos se, quem sabe, algum dia, amanhã ou nunca, tu fizesses tal proposta. Não brigaríamos por besteiras, não acabaríamos uma conversa sem risadas, não teríamos que bancar de galanteadores nesse novo amor, e aposto que não nos separaríamos nunca. Seríamos perfeitos.

Só que hoje, lembra do que me constaste? Hoje tu estavas frágil, tu tinhas perdido um grande amor. Hoje, tu não estavas com um sorriso no rosto na primeira vez em que te vi. Estavas magoado, e te consolei. Seria esse novo amor nosso mais um consolo? Oh! Que trágico. Como resolver um grande dilema de vida? Como te amo, como te quero, e como hoje tu me queres, percebo, mas será que ainda estarás inclinado por mim no amanhecer? Estou te servindo para esquecimento de um passado ou para a construção de um futuro? Por que me questiona disso justo hoje? Mas que timing, o teu! Hoje não dá. Hoje não posso. Não podemos. Não se quisermos uma casinha com um jardim cheio de girassóis daqui a alguns anos. Hoje tu não me queres, queres minha bondade, meu amor e minha fraqueza, sem retribuição. Queres apenas que eu te sirva como uns copos de bebida, afogando as lágrimas do momento. Se fosses me querer ontem, um outro hoje, talvez amanhã ou no mês que vem, agarrar-te-ia até meu último suspiro. Hoje, engulo meu amor e te respondo:

– Talvez, mas já estou de saída. Nos vemos depois!

Gavetas

weheartit
Olho pro lado e vejo: meu armário. Que importância teria? Um armário desarrumado em uma casa qualquer, talvez tão diferente ou tão parecida ou irrelevantemente igual a qualquer uma outra. E daí? Começo a procurar por sentimentos rasgados e juras esquecidas: nossa, como é difícil. Onde estão, onde estão? Blusas novas encobrem tecidos que carregam lembranças; as saias, longe de serem leves como o vento, escondem as memórias carregadas; meias se enrolam com o passado, entrelaçam tantas outras coisinhas misturadas. Enfim, ali fora: nada encontro. Aqui dentro, parece que também está assim: um guarda-roupa em completa desordem. São tantos laços e fitas que unem os mais diversos gostos e amantes… onde estão, aqui, os compartimentos para organizar meus sentimentos? Onde estão as pilhas que servem apenas para guardar as roupas velhas, as caixinhas que nunca são abertas? Parece-me que tudo está sempre tão exposto… onde estão as nossas gavetas?

*pequena reflexão

Planos

Tantos planos, e outra vez eu vou embora sem saber o que falar.” Drive

Sabes, querida, eu planejo tanto te encontrar… dar uma passadinha rápida, fazer-te uma visita. Não tenho tempo para um chazinho, mas queria te dizer um ‘oi’, entendes? Queria te perguntar como vão as coisas, queria ver se tu ainda lembras de mim… dizem que tu esqueceste de muitos, e preciso me certificar de estar tão dentro de ti quanto estás profunda em mim. Será que sabes disso? Oh, não importa… tu saberás de tudo quando eu te encontrar. Passaremos minutos nos olhando, e sei lá, tu podes me enxergar… e dizer alguma frase qualquer… uma palavrinha… podes dizer coisa alguma, mas espero que ainda me lembres. Oh, lembrarás… e passaremos segundos tocando mãos, tentando entender a distância e relembrando momentos. Sabes que planejo ir logo, não é? Acho que nem sabes. Certificar-me-ei de te falar disso quando eu for… mas sabes como são as coisas, né? Tantas contas, tantos prazos, e acabo deixando nosso encontro para um momento mais vago. Planejei ir em setembro, mas é tudo uma correria tão grande… agora, remarquei nosso prazo: será em julho desse ano, eu prometo. Ora, espere um segundo… meu telefone toca… ‘O que? Como assim? Por que? Quando?…’ Mas querida, o que aconteceu a ti? Nem acredito no que acabei de ouvir… nem acredito que nunca saberás minhas saudades e dos meus grandes planos para nós…


Dedicado a minha vovó, que foi embora desse mundo há algumas horas vítima de seu Alzheimer… e eu planejava vê-la no mês que vem…