Última mensagem

Mensagem recebida às 23h32 de: (xx) xxxx-xxxx

Olha, eu acho que se tu me ligasses todos os dias ou respondesses a algumas das minhas mensagens, sei lá, se tu viesses me ver uma vez por semana, trouxesse flores a cada mês… poderíamos ter sido. Sabe, podia ter dado certo. Ao invés disso, acordava todas as manhãs e dormia pelas madrugadas pensando e sonhando no dia em que, puf, não houvesse de te pedir um sorriso, um beijo ou uma resposta. Eu nunca tive pressa, mas ficar estagnada também não leva a lugar algum: a cada rara conversa ficava mais claro que, se tivesse havido um esforço mútuo, funcionaria. Mas não houve. E não funcionou, pois senti todos os sentimentos só. Em nenhum momento no qual fomos uma qualquer coisa me senti ser algo além de eu mesma. Como ter um par. E eu pedia tão pouco… tu não precisavas me fazer juras, só estar ali comigo, no mesmo cômodo, por um tempo. Nem precisava ser muito… só o suficiente. Entendes do que falo? Eram pequenas coisas, caro. Sorrisos, beijos ou respostas. E nem precisavam estar no plural.
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Planos

Tantos planos, e outra vez eu vou embora sem saber o que falar.” Drive

Sabes, querida, eu planejo tanto te encontrar… dar uma passadinha rápida, fazer-te uma visita. Não tenho tempo para um chazinho, mas queria te dizer um ‘oi’, entendes? Queria te perguntar como vão as coisas, queria ver se tu ainda lembras de mim… dizem que tu esqueceste de muitos, e preciso me certificar de estar tão dentro de ti quanto estás profunda em mim. Será que sabes disso? Oh, não importa… tu saberás de tudo quando eu te encontrar. Passaremos minutos nos olhando, e sei lá, tu podes me enxergar… e dizer alguma frase qualquer… uma palavrinha… podes dizer coisa alguma, mas espero que ainda me lembres. Oh, lembrarás… e passaremos segundos tocando mãos, tentando entender a distância e relembrando momentos. Sabes que planejo ir logo, não é? Acho que nem sabes. Certificar-me-ei de te falar disso quando eu for… mas sabes como são as coisas, né? Tantas contas, tantos prazos, e acabo deixando nosso encontro para um momento mais vago. Planejei ir em setembro, mas é tudo uma correria tão grande… agora, remarquei nosso prazo: será em julho desse ano, eu prometo. Ora, espere um segundo… meu telefone toca… ‘O que? Como assim? Por que? Quando?…’ Mas querida, o que aconteceu a ti? Nem acredito no que acabei de ouvir… nem acredito que nunca saberás minhas saudades e dos meus grandes planos para nós…


Dedicado a minha vovó, que foi embora desse mundo há algumas horas vítima de seu Alzheimer… e eu planejava vê-la no mês que vem…

Neurose

Coloco meu despertador para tocar cinco minutos antes da hora exata que preciso levantar. Dez minutos antes de ele tocar, já estou acordada. Estou imersa nos pensamentos que englobarão mais um dia da minha vida. Levanto antes, banho-me antes e, quando vejo, como estou adiantada! Cheguei no trabalho mais uma vez antes mesmo de a empresa abrir. Fico sentada na escadaria, como sempre, esperando os despreocupados. Nossa, como não se importam. Tantos prazos, tantas coisas, e eles ali vêm caminhando mansinho, sem pressa para nada. Engulo esse pensamento. Finalmente entro no prédio, subo mais escadas e chego em meu departamento muito cansada. Suando. E o dia ainda nem havia começado…

Meus colegas conversam entre si asneiras: o assunto da novela, a briga com o namorado… qual a necessidade disso? Os prazos não mudam, as horas não param e as coisas a fazer não diminuem enquanto a conversa deles flui, mas eles falam como se tivessem todo tempo do mundo… Hm, que tolos… Ai, que inveja…

Queria eu andar sem ombros rígidos de preocupação, sem a cabeça doendo de estresse e a barriga roendo-se de ansiedade. Um colega pede como foi minha noite e faz com que meus pensamentos voltem ao foco: os prazos. Começo minhas atividades antes de todos e termino depois de muitos. Não entendo como podem sair antes sem ter feito nada, N-A-D-A, do que deveria ser realizado.

Começo o dia e o termino do mesmo jeito: sozinha. Venço os prazos, termino as tarefas e reviso os boletos. Vou andando pela rua para a minha casa. Passo por um bar cheio de gente, e é claro que lá os meus colegas estão. Nem olham pra fora, e eu? Eu estou exausta. E amanhã? Será igual. Como sempre. Então eu choro. E é assim, quando paro de inquietar-me pra pensar:

Meu Deus, como eu queria fazer coisa nenhuma como os outros…

Mais uma história triste

Chorava na noite clara. As estrelas não brilhavam, a lua nem aparecia. Estava ela sentada num banquinho, sozinha no meio da rua, imersa em pensamentos tristes. Olhava para os passantes e nada via, exceto um rosto – o rosto de seu coração despedaçado. O rosto das mil razões de mágoa que a contagiavam. Enfim, viu uma livraria aberta entre tantos outros estabelecimentos que já haviam se fechado para os sentimentos dela. Viu ali uma chance de reconhecer outras tristezas, imaginárias ou reais, para se afastar da própria melancolia. Entrou de olhos cheios d’água, coberta de frio e disfarçada de feliz. Não convenceu ninguém. Todos (os poucos que lá estavam) olhavam com pena, e logo ela percebeu que seu plano não daria certo: teria ela de enfrentar a própria dor? Suas feridas se tornavam mais perceptíveis, pois escorriam com mais rapidez pelo rosto avermelhado da querida. Mais ela tentava esconder, menos ela conseguia persuadir os olhos alheios. Por fim, pegou um caderninho da loja, pagou e sentou-se perto da saída. Ela entrara para ler outros romances tristes, mas acabaria escrevendo sua própria história? Mais uma lamentação. Seria mais uma história de amor com final triste. Mais um escritor deprimido. Quem se importaria com mais um desses, entre tantos? Mas ela começou… ou não, pois ainda escrevia repetidas mil vezes aquele nome que há tanto a assombrava. Rabiscou a página toda com aquelas letrinhas, até que parou. Olhou para os lados e percebeu como aquilo não fazia sentido – pegou a folhinha, rasgou e jogou no lixo da saída da livraria de subúrbio. Saiu pela pequena porta de madeira, acompanhada do caderno de lindos sonhos, que se tornaria seu grande confidente – pelo menos no dia que ela o abrisse com coragem o suficiente para contar sua história. E quando a força chegar, podes ter certeza que te conto, entre tantas outras, a pequena história de amor dessa menina chorosa.

A (triste) escritora louca

Como transcrevo a dor? É assim: a dor acontece. Percebo que as pessoas não são tão perfeitas como eu achava. Decepciono-me com o mundo ao meu redor. Choro. Quando não é suficiente, grito. Quando não é suficiente, escrevo. Assim que começo.

Depois penso. Penso se estou exagerando, se não é tudo um sonho. Penso se deveria mesmo pôr aquele ser à perfeição, esperando nada mais do que o bem sempre. Penso se estou certa ao agir assim. Penso na minha tristeza. É assim que desenrolo as palavras.

Tento encontrar vocábulos para expressar o que sinto; quando não encontro, mais ainda me entristeço. Às vezes, até aumento minha dor. Sabe, às vezes até te engano e tu achas que sou tão triste assim. É, às vezes nem sou tão triste, sou apenas mágoa. Entro na dor maior que a minha, embarco nos meus escritos e me sinto pior do que antes. E assim continuo.

Me desespero e erro. Rasgo pensamentos e quebro ilusões. Pego um pedaço de papel e uma porção da dor. Assim termino de escrever linhas de mágoa. E quanto alívio sinto!…

Uma vida

Os dias passavam, e numa mesmice inquietante ela via o tempo perdido…
Planos falhos, ideias erradas e cartas rasgadas…
Ainda não chegara sua vez de vencer na vida…
Ela seguia tentando… e chorando… e temendo…
Seu grande medo consumia as horas:
Será que em algum momento o meu dia vai chegar?


Nunca chegou.

Os dias não são nossos; são do mundo. O planeta e suas órbitas não conspiram por uma vida, somente uma alma pode mudar outra. Os dias não nos pertencem… mas a nossa vida, sim. Ela é nossa, e cabe a nós decidir se ela vai valer a pena… ou não.

O dia de hoje

Ontem foi bom; amanhã será ótimo… E o que fazer com o dia de hoje?
Hoje é o dia em que tu vais levantar pela manhã e subitamente voltar à cama.
Será o dia em que todos os planos serão desmarcados por motivos quaisquer.
Ficarás relembrando de como as coisas eram melhores, de como os perfumes eram mais doces e as paixões mais queridas.
Ficarás pensando em um futuro próximo, distante, qualquer… uma realidade imaginada.
Hoje será o dia em que passarás muito tempo falando sozinho.
O dia em que ficarás esperando que notem tua ausência… que alguém ligue e diga “Por onde andaste? Estou com saudades…”
E ninguém ligará…
Não por tu não seres importante… não por não sentirem tua falta… mas por não saberem como tu sentes. O que sentes?
O ser humano é uma criatura tão esquisita que sente sem mostrar, mostra sem sentir…
E só nos mostramos a nós mesmos nesses dias… nesses dias em que somos nossa companhia.
Ou não somos? Somos nossos inimigos? Choramos a nossa própria ausência? Onde estamos?
Estamos num outro dia. Sonhando outros desejos. Pensando noutras coisas.
Só não focalizamos nesse dia. O dia de hoje.
Um dia que não passa… mas o mais importante… um dia que não quer passar!
Por que deixar um dia da sua vida passar?