O auto dos pecados capitais

*Adaptação do Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, feita por mim.

Lista de personagens:
Diabo
Anjo
Gula
Preguiça
Cobiça
Ira
Luxúria
Amor

Cenário:
Um palco escuro, com dois espaços bastante distintos e divididos por uma barca.

Chega uma barca no palco escuro. Aqueles que estão dentro dela são convidados a se retirarem. Todos, confusos e assustados, passeiam pelo palco. Enfim, aparece o Anjo, vestido de branco, e o Diabo, coberto de negro. O guloso é o primeiro a indagar sobre aquele espaço misterioso:

– Onde estamos, onde estamos?
Estou atrasado para o jantar!
O Diabo responde:
– Venha, venha, ó guloso, prometo-te uma mesa farta no meu lar!
Novamente o guloso:
– Meu nome é Danilo!
Por que ousas me chamar “guloso”?
E o Diabo:
– Na terra este poderia ser teu nome, mas aqui teu apelido é gula! Pecaste em vida, pois sempre esteve à pensar na comida, alimentando-se por simples gosto, ao invés de necessidade. Irás para o inferno, e veremos como lidarás com a abundância da qual tanto gozas.

O guloso, temeroso, tenta falar com o anjo. De nada adianta, e com a angústia por comida lhe subindo à cabeça, ele decide entrar no inferno.
Depois dele, a ira resolve se pronunciar, destacando logo que seu nome é Lúcia. “Aqui teu nome é Ira”, logo retruca o Diabo, e não demora para que comece uma briga entre os dois. Todos se metem, exceto a preguiça e o amor, que esperam calmamente. O Anjo, enfim, obriga a ira a entrar no inferno, enquanto uma mulher de roupas vulgares começa a se movimentar. Ela vai em direção ao anjo, que finge não vê-la, e tenta seduzi-lo com palavras doces e gestos amargos. Algumas tentativas falhas depois, a moça desiste e caminha em direção ao inferno, sem trocar uma palavra com o Diabo; ele apenas grita, ao vê-la passar: “Luxúria, teu nome é Luxúria!”.
Entendendo toda a situação, chega a cobiça ao Anjo:

– Meu nome foi cobiça em vida, mas me arrependo! Tome, fique com todos meus bens, não preciso de nada! A inveja não toma mais conta de mim, tornei-me uma pessoa que só deseja o bem dos outros.
O anjo responde:
– Pecaste em vida, e te arrependeste na morte. Não posso te ajudar, porém, pois devias ter te arrependido em vida! A morte não poupa ninguém, a morte não salva ninguém. Temo dizer-te que irás para o inferno. Não existem tratados com o Diabo, por isso nem perca seu tempo discutindo com ele.

A cobiça, então, entra tristemente no inferno, enquanto um personagem sentado no chão começa a gritar “Mas que cansaço! Quanto mais terei de esperar?”, dirigindo-se para o Diabo. Ocorre um diálogo minúsculo entre eles, já que o preguiçoso só quer um local para descansar. O Diabo diz que ali será seu lugar de eterno repousar, e o preguiçoso, sem sequer ir até o anjo, por desgaste, entra no inferno.
Uma menina ainda resta no palco, mas parece ter muito medo de se aproximar do Anjo. “Venha, querida”, o Anjo diz com voz amável. Ela caminha lentamente, explicando-se:

– Em vida me chamei Tânia, não sei como serei chamada agora. Percebo que faltam alguns pecados a serem chamados, mas nenhum deles foi cometido por mim. Diga-me, anjinho, por que me encontro aqui.
O Anjo responde:
– Acalme-se. Estás aqui porque morreste, uma pena. Mas não se preocupe, serás salva. Fostes uma pessoa boa e carinhosa. Não te nomearei com pecados; teu nome agora é amor.

A menina sorri e caminha junto do Anjo, que já havia terminado seu trabalho do dia, para o céu. O Diabo ainda fica em cena, à espera dos tantos outros pecadores que ainda estavam por vir.
FIM

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O ESCAPE

*Você já leu o texto “Alice de sonhos”, escrito por mim? Vê aqui em baixo. Essa é uma versão da visão do homem misterioso do mesmo conto.

Meu dia no trabalho foi difícil. Estava cansado, mas não podia relaxar. Faça isso! Receba aquilo! Nunca me davam descanso. Um homem qualquer me disse enquanto eu passava caminhando, você parece estar exausto, precisa de carona para casa? Olhei com desprezo para o automóvel do rapaz, não, obrigado, já estou perto de casa.
Não fui para casa, mas para o bar que ali perto se encontrava. Fingi estar bebendo, para não me acharem fraco. Sou forte, mas não fazia nada, enquanto o dono do bar roubava dos seus clientes e meu colega bebia calado. Todos os outros pareciam ser desconhecidos. Ninguém perceberia minha nova ausência. Era hora. Vou dar uma volta de moto, eu disse para ninguém, e minha gratificação foi perceber: ninguém respondeu.
Saí correndo pela rua, ansioso para chegar em casa e vislumbrar minha moto. Semáforos abertos, rua movimentada. Toda correria me deixou ainda mais cansado, aumentando minha ânsia. Já podia enxergar aquele transporte de metal querido, então corri mais rápido, até chegar perto dele. Liguei os faróis, percebi como era lindo o clarão que eles formavam; logo eu já estava em cima da moto, em direção ao meu destino desconhecido.
A velocidade do meu veículo sempre me impressionava; em segundos eu já estava em outra cidade, um lugarzinho pequeno e de pessoas simples. O local perfeito? Bom, tinha pouca gente, ia ser mais fácil. Gosto de desafios, mas estava cansado. Anjinho, tira-me daqui! Ouvi uma menininha gritando. Seria essa noite ainda mais fácil do que imaginei? Sim, seria.
Joguei minha moto em direção daquela casa, e parei em frente do quarto da menina. Ela me olhou entusiasmada e saiu correndo em minha direção. Essa noite poderia ficar mais fácil?
Coloquei-a na moto, sinalizando que ela se segurasse a mim. A menina me enchia de perguntas, sempre sem respostas. Eu só conseguia rir. De vez enquanto soltava uma risadinha, um pedaço da minha alegria em perceber como meus planos funcionavam exatamente como o planejado; não era tão emocionante, mas mesmo assim era um alívio.
A moto ia diminuindo a velocidade e entrando por um beco escuro, até que enfim parei em frente ao meu prédio, colocando novamente a menina nos braços. O dia tinha sido longo, devíamos descansar. Não havia nenhum imprevisto, aquilo podia esperar algumas horas.
Acordei, no dia seguinte, mais cedo. Escrevi uma coisa qualquer em algum papel velho que guardava em casa, e colei à testa da criança. Fui para o bar, esbanjando a glória de minha conquista. Orgulhosamente mostrei a todos, mesmo àqueles desconhecidos, minha habilidade em planos infalíveis (claro, sem mencionar sobre o que realmente meus planos tratavam).
Aproveitei para dar mais um passeio de moto, apesar das cervejas que havia exageradamente bebido. Um homem qualquer de uma rua sem importância me olhou, você parece mais calmo hoje. Não precisei olhar-lhe com desprezo. Sim, estou muito melhor agora. Um bom dia para você, estou indo para casa pois ainda tenho muito trabalho a fazer hoje.

Alice de sonhos

Na pequena cidade de Palhas Andes, no sul de Bentas, pessoas simples com suas vidas simples e seus afazeres simples passavam por mais um dia de trabalho (simples?). Ninguém ouvia os gritos de súplica daquela menina dos olhos claros e cabelos negros; ninguém ligava para a mesmice da vida: exceto ela, criatura de desejos e ilusões.
Todas as noites, antes de dormir, ela fazia um pedido para o anjo Luiz, o qual ela conhecera em um de seus sonhos, um sonho belo que se repetia todas as noites. Tira-me daqui, anjinho, que quero vida! Tira-me daqui…
E colocava-se para dormir, na espera de, alguma manhã, encontrar-se numa outra cidade, quem sabe noutro país? Os amigos dela gargalhavam ao ouvir da ilusão da menina de olhos esperançosos: até parece que existe um anjo Luiz! E mesmo se ele existir, jamais dará atenção a uma criança que vive numa cidade como essa! Somos privilegiados, Alice! Temos paz e solidariedade, vivemos sempre tranqüilos. O que você pode querer além do que temos?
Mas nada conseguia conter sua ânsia. Ela queria mais! Mais, mais, muito mais! Berrava com o máximo entusiasmo, tanto que ninguém estranharia se ela algum dia desaparecesse sem avisos.
Certa noite, ela não gritou nem fez desejos ao anjinho. Estava cansada demais e, por isso, pegou logo no sono. Não teve o sonho de todas as noites: um paraíso nevoado, nada parecido com sua cidade; nessa noite, porém, a única coisa que invadiu seus sonhos foi a escuridão.
Ela acordou assustada, temendo ter quebrado um pacto com aquele anjo misterioso. Perdoa-me, anjinho, perdoa-me! Nunca esqueci de ti, mas não sei se sabes quem sou! Não sei se queres me ajudar! Prova, meu anjinho, que um dia daqui me tirará!
Uma luz brilhante invadiu seu quarto. Ela se entusiasmou, pensando ser aquele o anjinho com o qual ela tanto sonhava. Olhou com mais atenção e pôde ver que aquele clarão vinha de um farol, que se posicionava na parte da frente de um transporte de metal, algo que ela nunca tinha visto antes. Quanta tecnologia possui esse anjo, ela pensou, e seguiu correndo para os braços daquele velho homem que estava parado em frente a sua casa. Sem pensar, deu um abraço nele: anjinho, sabia que viria me salvar! Para onde vamos?
Tudo que ela ouviu como resposta foi uma risadinha. Não se importou, pois nunca havia visto o anjo Luiz falar. Será que anjo algum fala?
Carinhosamente, o velho a colocou em cima da moto, fazendo um sinal para que ela se segurasse a ele. Alice fechou os olhos, esperando ansiosamente pelos novos lugares e por tantas pessoas desconhecidas que veria. Olhou para o velocímetro, que marcava 170 km/h. Ela não sabia o que aquilo significava, mas podia sentir toda a cidadezinha voando rapidamente para seu passado.
Chegou, enfim, ao seu destino. Um aglomerado de inutilidades captou sua visão, e ela não entendia nada, mas demonstrava sua profunda alegria em não conhecer. Quando vamos conhecer a cidade? Ela perguntava e perguntava, sempre sem respostas.
A moto ia diminuindo a velocidade e entrando por um belo escuro, trazendo ainda mais curiosidade para a menina dos desejos. Enfim, pararam em um prédio que parecia ser abandonado, e ali o homem, após pôr a menina nos braços, entrou cuidadosamente.
Era frio e úmido, além de sujo, aquele lugar. Não havia pessoas, não havia nada. Exausta, a menina decidiu ter uma noite de sono, para só então voltar a questionar seu suposto anjinho.
Acordou sozinha, com um bilhete preso à testa “Fui comprar comida, criança”. Que estranho ele me chamar de criança. Meu anjinho não sabe meu nome? Mais estranho ainda é ele ter que se alimentar. A menina passou um tempo refletindo, mas deixou pra lá. Passaram-se algumas horas, e nada do anjinho voltar. Alice ficou assustada, então se pôs a rezar: anjinho, cadê você? Por que não volta para cá? Vamos conhecer o mundo!
E o homem voltou. Nada se parecia com um anjo. Estava imundo e com um cheiro estranho. Álcool? Ele andou bebendo? Ele estava meio zonzo, por isso a menina imaginava que sim, ele tinha bebido. Anjinhos bebem? Pensou novamente: ele não estava se parecendo nada com o anjo Luiz; barba mal feita e cabelos despenteados. Anjinho, qual é o seu nome? Ela perguntou. Você é o meu anjinho Luiz? Não se parece muito com os meus sonhos…
Sonhos não são realidade, menina. Pela primeira vez ele respondia alguma pergunta.Que voz grossa e seca! A menina ficou apavorada. Para sua sorte, o bêbado caiu no chão e ali ficou, pelo resto do dia. E da noite. E dos três dias seguintes.
Alice ficava cada vez mais desesperada, pois não tinha dormido nenhum segundo daquelas setenta e duas horas.
Finalmente, caiu no sono. Sonhou com aquele anjo bondoso com o qual sonhava em Palhas Andes. Foge, querida! Foge que eu te ajudo a voltar para casa.
Em pouco, ela se levantou, correndo pelo espaço e procurando por uma saída. As janelas eram difíceis de abrir, a porta estava completamente trancada. É, aquele homem havia pensado muito bem em como me prender aqui. Tentava abrir as janelas, e com muito esforço e alguns minutos, conseguiu.
Chegou à rua, sem saber o que fazer? O que faço, meu anjinho? Ajuda-me!
Depois disso, um pedaço de papelão começou a brilhar. Ela imediatamente subiu no papel, e numa velocidade ainda maior aquilo começou a voar. Voou alto e longe, por isso em pouco a menina já via sua cidadezinha querida. Que saudades tuas senti, Palhinhas!
Chegou ao solo e foi direto para casa. Todos ficaram surpresos em vê-la, pois pensaram que ela havia realizado seu desejo de conhecer o mundo, de sair daquela vida. Experimentar uns dias longe do confortável fê-la ver o quão especial era o local em que ela vivia. Somos mesmo privilegiados aqui, ela sussurrou para seus amigos (para que ninguém soubesse como seus gritos do passado estavam errados, pois o paraíso estava bem ali).

(Fruto de uma aula de teoria da literatura e pensamentos maldosos)

Morrer de amor

Olá pessoal! Então, esse texto foi decorrente de um processo avaliativo da disciplina “literatura portuguesa”, que tinha mais ou menos isso como enunciado: você sonhou que estava em um mosteiro da Idade Média, e lá recebia um bombom (metáfora para qualquer objeto que desejar). Quando você acordava, o bombom estava lá ao seu lado. Escreva um conto, um poema ou um ensaio poético sobre isso. Bom, e foi nisso que deu! Não se cansem com a religiosidade e todo o amor cortês do meu texto, são características medievas! 😀

Morrer de amor

O castelo. Lembro como o via antes do amor bater a suas portas. Local belo, confortável, no qual todos se submetiam a mim; ou melhor, ao Rei. Eu era apenas sua Rainha, mas bastava, pois ali minha vida era sofisticada. Um pretendente misterioso, porém, mudou minhas percepções.
O dia estava lindo, as flores apareciam quase espontaneamente nos jardins do castelo. Entre elas, porém, encontrei um homem. Pouco notei de sua aparência, pois estava deslumbrada pelo embrulho que ele trazia consigo. Cheguei mais perto, e ele pareceu estar esperando por mim; pareceu estar ali há dias, com uma paciência infinita que só poderia ser fruto de um grande amor.
Ele me entregou o embrulho, e rapidamente encontrei um terço, brilhando para mim. Naquele momento senti uma música, uma canção tão bela saindo daquele presente. Parecia-se com um poema, sem forma ou estrutura de poesia; mas belo, lindo.
Eu via as lágrimas no seu rosto, e por isso voltei a fitá-lo. Ele se parecia a outro poema, e logo arrancou meu coração. Era um amor tão puro aquele que o homem me oferecia, tão inocente. Percebi logo, porém, que aquilo era uma tragédia, nunca se tornaria real, ele nunca poderia tocar-me; nunca seríamos felizes.
Era tarde demais, por isso pedi a Deus que trouxesse aquele momento para antes, antes de tudo; que eu pudesse viver aquele amor. Não era possível, e o sofrimento nos consumiu.
Afastei-me, e percebi sua tristeza devido àquela paixão que nunca se concretizaria. Suas lágrimas se tornaram minhas, e quando dei por mim estava de volta ao castelo. Sozinha, naquele lugar tão cheio de nada.
Tudo que restava daquele amor era a pureza do terço que ele havia me entregue naquele dia que me fez abrir os olhos, por isso me pus a rezar. Rezei, e percebi que não suportaria mais viver naquele não-amor. A tristeza se tornou meu dia-a-dia, e logo decidi pôr um fim naquela angústia.
Todos vivem o tempo necessário para entender o sentido da vida, alguns vivem pouco, como as borboletas, tão cheias de beleza, e outros vivem muito; mas o que importa realmente é o que aprendemos nessa jornada. Aprendi com um momento o amor de uma vida inteira. Aprendi o bastante neste dia, nesta semana, nesta vida, para finalmente me entregar e ser salva pelo morrer de amor.
Fim

Ao meu lar

Oi pessoal! Já estão cansados do meu amor incondicional pelo Rio Grande do Sul? Desculpem, mas lá vem mais coisas! Na verdade nem é culpa minha, mas sim da professora de Teoria da Literatura que mandou a gente fazer um poema escolhendo uma das épocas do lirismo, e é ÓBVIO que eu escolhi o lirismo romântico e mais ÓBVIO ainda que decidi falar do meu amor pelo RS! Então eis aqui meu poema (não muito bom)! Digo logo que só posto ele aqui porque sei que não são muitos os que aqui vem me visitar, senão eu estaria morrendo de vergonha! HEHE Divirtam-se!

Ao meu lar

Não vivo aqui, em mim
Meu espírito permanece no meu lar,
Aqui não estou, apenas passo
Cansado do cansaço de tão longe de lá estar

Vindo de uma terra onde se faz sol,
Frio, ventania e campos floridos
Tudo se faz no céu claro e azul,
Na terra do amor, o Rio Grande do Sul

Oh distância!
O que me rodeia não me satisfaz,
A quietude sem fim aflige esse lugar
O nada se torna um fardo minaz

Tudo me lembra de não estar naquelas terras
A melodia, o perfume, a calmaria
Nada me lembra do que faço nestas costas…
A nostalgia me consome
Continuo sem respostas