Neurose

Coloco meu despertador para tocar cinco minutos antes da hora exata que preciso levantar. Dez minutos antes de ele tocar, já estou acordada. Estou imersa nos pensamentos que englobarão mais um dia da minha vida. Levanto antes, banho-me antes e, quando vejo, como estou adiantada! Cheguei no trabalho mais uma vez antes mesmo de a empresa abrir. Fico sentada na escadaria, como sempre, esperando os despreocupados. Nossa, como não se importam. Tantos prazos, tantas coisas, e eles ali vêm caminhando mansinho, sem pressa para nada. Engulo esse pensamento. Finalmente entro no prédio, subo mais escadas e chego em meu departamento muito cansada. Suando. E o dia ainda nem havia começado…

Meus colegas conversam entre si asneiras: o assunto da novela, a briga com o namorado… qual a necessidade disso? Os prazos não mudam, as horas não param e as coisas a fazer não diminuem enquanto a conversa deles flui, mas eles falam como se tivessem todo tempo do mundo… Hm, que tolos… Ai, que inveja…

Queria eu andar sem ombros rígidos de preocupação, sem a cabeça doendo de estresse e a barriga roendo-se de ansiedade. Um colega pede como foi minha noite e faz com que meus pensamentos voltem ao foco: os prazos. Começo minhas atividades antes de todos e termino depois de muitos. Não entendo como podem sair antes sem ter feito nada, N-A-D-A, do que deveria ser realizado.

Começo o dia e o termino do mesmo jeito: sozinha. Venço os prazos, termino as tarefas e reviso os boletos. Vou andando pela rua para a minha casa. Passo por um bar cheio de gente, e é claro que lá os meus colegas estão. Nem olham pra fora, e eu? Eu estou exausta. E amanhã? Será igual. Como sempre. Então eu choro. E é assim, quando paro de inquietar-me pra pensar:

Meu Deus, como eu queria fazer coisa nenhuma como os outros…
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A (triste) escritora louca

Como transcrevo a dor? É assim: a dor acontece. Percebo que as pessoas não são tão perfeitas como eu achava. Decepciono-me com o mundo ao meu redor. Choro. Quando não é suficiente, grito. Quando não é suficiente, escrevo. Assim que começo.

Depois penso. Penso se estou exagerando, se não é tudo um sonho. Penso se deveria mesmo pôr aquele ser à perfeição, esperando nada mais do que o bem sempre. Penso se estou certa ao agir assim. Penso na minha tristeza. É assim que desenrolo as palavras.

Tento encontrar vocábulos para expressar o que sinto; quando não encontro, mais ainda me entristeço. Às vezes, até aumento minha dor. Sabe, às vezes até te engano e tu achas que sou tão triste assim. É, às vezes nem sou tão triste, sou apenas mágoa. Entro na dor maior que a minha, embarco nos meus escritos e me sinto pior do que antes. E assim continuo.

Me desespero e erro. Rasgo pensamentos e quebro ilusões. Pego um pedaço de papel e uma porção da dor. Assim termino de escrever linhas de mágoa. E quanto alívio sinto!…

A louca dos porquês

Às vezes me pego imaginando aqueles momentos que ficaram meio obscuros – quando não me abri completamente, ou não fui exposta a toda a verdade. Fico pensando se um dia eu decidisse te contar: lembras daquele dia tão triste em que saístes sem entender nada? Pois é. Não era só isso. Eu tinha vários outros motivos que vou começar a citar agora: (…) E aí eu lembrava de tudo que me levara àquele momento – histórias, verdades, mentiras – tudo embolado junto da insegurança que mantinha esse grande embrulho feio e estragado fechado em minha memória. E se algum dia aquele rapaz dos olhos brilhantes resolvesse me fazer entender o que aconteceu? Também é uma viagem interessante pensar nisso – as milhares de hipóteses para explicar gestos e frases tão desnecessárias…

Mas meu fascínio, mesmo, é imaginar minhas palavras tornando outros universos mais claros: há tanta coisa que não sabes e talvez precises saber. Tantos momentos que pode ser que tu jamais penses que aconteceram… e ali estavam, como motivos para o medo e o fim, que acabaram incompreendidos pela falta de coragem. A coragem para falar tudo sem falsidades, sem tentar amenizar situações.

Se um dia desses nos encontrássemos, será que eu teria coragem de te falar? Será que te contaria das dores que deixaste fincadas em locais profundos? Algumas até submersas em dores maiores ou lembranças melhores… mas ainda dores. Fujo desses pensamentos e finjo que não existem, mas será que conseguiria correr de tua face num dia de verão? Tão calma, quem sabe até se eu não te diria meus porquês? Mas é tão difícil… nem imaginas, talvez nem compreendas… quando nos encontrarmos na avenida alegre, não entenderás nada.. acharás que sou louca. Mas te contarei. Isso, é claro, se nos encontrarmos. E tu vieres falar comigo. E citares esse assunto. E pedires por respostas. E insistires nisso por algum tempo. Caso contrário, quem sabe, a clareza fica pra próxima.

A louca dos diários

31 de dezembro de 2015.
Quinta-feira

Reflexões finais
Mantenho diários anuais de tudo que faço e penso. Funciona como um lugar onde coloco tudo que não posso colocar no mundo. Os anos passam, os pensamentos ali ficam. Mas nem ouso mais ler o que escrevi há uns dois anos. Não tenho coragem. O que fui e o que sou não são compatíveis. O que escrevi me traz vergonha, fujo daqueles pensamentos. Nem mais escrevo muito, com medo do que me tornarei. Imagina só se me torno alguém que despreza meus escritos atuais? Imagina só se algum dia eu me revelo meu real eu? Talvez seja isso. Medo, não vergonha. Medo de ver quem eu sou. Quem eu sempre fui. Sempre serei. Mas me recuso a ser. Não quero ser dona daqueles pensamentos. Não quero recordar o que achei que estivesse esquecido na minha memória. Não quero pensar, lembrar o que já não lembrava. Tudo que lembro me torna mais daquela pessoa que fui. E sempre serei. Mesmo. Quanto mais leio, mais volto a ser quem sou. Tenho medo de nunca mudar. Não quero, cansei de ser eu. Quer saber? Me ser cansa. Cansei de ser por completo. É. Ter muitas lembranças cansa.

Viver nos esgota de nós mesmos.