Flores e Laços (Sobre o Caio)

Eu e Caio andávamos de mãos dadas desde o momento em que aprendi a ver. Abri os olhos, e ele estava lá, colado a mim. Ele não me largava, eu não o deixava ir, não importa aonde ou quando. Até quando me mudei ele veio junto comigo. Eu amava – e adoro – as coisas que ele me conta: segredos, histórias e besteiras. Tantas besteiras… um dia, nós dois enrolados entre ramalhetes de girassóis, ele me falou assim:
Sei que pretendia dizer alguma coisa muito especial pra você, alguma coisa que faria você largar tudo e vir correndo me ver…
Eu retruquei, sem entender nada:
– Como assim, Caio? Eu estou te vendo e estou aqui do seu lado, e tu não precisas dizer nada…
Ele se calou por uns instantes. Acho que ele estava seguindo meu conselho de deixar os silêncios ocuparem seu discurso. Mais alguns minutos de sol, e ele finalmente me responde:
Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir…
– Mas Caio, do que estás falando? Nós estamos sempre juntos, tu nunca fugiste de mim. E o que podes ter a me esconder, eu que estou contigo sempre e em todos os dias?
Nada. Imaginei que aquilo tudo era coisa de louco, que, meu Deus, todos estavam certos sobre ele. Pois é, diziam-me que ele era maluco, que falava coisas-sem-sentido, que gritava insanidades, mas eu não acreditava. Naquele momento, pensei, as palavras estavam o deixando parecer um l-o-u-c-o. Inquietei-me e saí correndo. Foi a primeira vez em anos que largamos a mão um do outro. Ele custou para me deixar ir, mas permitiu. Com um olhar, sem mais vocábulos. Corri para longe daquela plantação de girassóis, e lá fiquei por dias. Meses. Anos. Pensava, às vezes, até, que encontraria o Caio no meio de uma rua solitária, juntaríamos nossas mãos e nunca mais nos separaríamos de novo. E um dia, deparamo-nos em frente a uma floricultura, e eu soube, naquele momento, de tudo. E exclamei:
– Diga-me, diga-me algo que me faça largar tudo por ti. Diga-me tudo que preciso saber, para que tu não precises mais fingir…
O que te dizer? Que te amo, que te esperarei um dia na rodoviária, num aeroporto, que te acredito, que consegues mexer dentro-dentro de mim. É tão pouco.
– Não creio não ter entendido antes tuas palavras… Sinto tanto por ter ido embora…
Não te preocupa. O que acontece é sempre natural. Se a gente tiver que se encontrar, aqui ou na China, a gente se encontra. (…) E te espero. E te curto todos os dias. E te gosto. Muito.
Aquele momento não precisava de interpretações filosóficas no mundo biossocial antropocultural nem era loucura-insana nem nada do tipo. Era mãos dadas pro resto da vida. Era simplesmente… nas palavras do próprio Caio:
Remar.
Re-amar.
Amar.
~
*grifos em itálico constam na obra do saudoso Caio Fernando Abreu.
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